segunda-feira, 27 de março de 2006

Claros Disparates

Foi com perplexidade que li hoje no jornal Público o artigo de opinião assinado por Luís Salgado de Matos intitulado “Publicidade Oculta”. Transcrevo-o agora aqui na sua totalidade, para que não haja qualquer dúvida, comentando-o de seguida.
Publicidade Oculta
Entre as nossas instituições informativas há uma criatura tão atípica que nem tem nome certo: agência de comunicação social, ou uma coisa “a modos de assim”.
Estas agências recebem dinheiros de institutos públicos e empresas privadas para colocarem nos jornais notícias favoráveis aos pagantes e evitarem as críticas. A pedido da agência, o jornal publica notícias revelando a extraordinária actividade do gestor público Sicrano, ou a espantosa eficácia da empresa Chispêtêó – e não revela que o Sicrano quer ser reconduzido, pagando para tanto com o dinheiro dos impostos, ou que a Chispêtêó faz facturação enganosa, à custa do público e portanto do leitor. As notícias a pedido parecem ser mais frequentes nesta época de assembleias gerais.
Parecem, pois o fenómeno é oculto. Melhor: só é conhecido quando essas agências fazem publicar nos jornais a publicidade gratuita dos novos contratos que assinaram.
Haverá algum problema no esquema? Talvez não. Essas agências tratam de pequenas coisas: se não for o Sicrano a dirigir o Instituto das Cremações Ligeiras, será o Beltrano. As agências são inócuas? Não são; fazem pedidos eficazes: após a publicitação dos contratos das ditas agências com o Sicrano e a Chispêtêó, lemos nos jornais mais notícias, mais favoráveis, sobre o Sicrano e a Chispêtêó – e nenhuma desfavorável.
A imprensa perde. Com efeito, os jornais tentam ter o monopólio da intermediação entre o leitor e a fonte; por isso, apresentam todas as suas notícias de modo a que o leitor perceba sem margem para dúvidas quem é o seu autor: artigos assinados; as “cartas ao Director”; a publicidade, que em geral se distingue por si própria; a “publicidade redigida”, imitando os artigos de jornais e por isso assinalada; as “notas oficiosas”, hoje uma raridade, em que o governo obriga os jornais a publicarem certos textos, que são aliás a única excepção ao poder absoluto que a lei dá ao director de recusar a publicação de um texto. Aquela exibição assegura ao jornal o seu monopólio da intermediação da informação escrita entre o leitor e as fontes. Os jornais só cedem o seu monopólio às agências de comunicação escondida.
É um mistério sem ser um milagre que a imprensa se preste a publicar estas notícias a rogo, deixando que outros vendam às ocultas o seu espaço e prestígio, pois, sendo séria, ela própria lança dúvidas sobre a sua seriedade. Fá-lo-á porque estas notícias são uma publicidade de segunda? Porque são a condição implícita na publicidade de primeira? Porque uma ínfima minoria de jornalistas tem uma agenda oculta?
Mesmo que este esquema seja um serviço público desconhecido, há um problema: o esquema é escondido ao leitor. O leitor lê uma notícia a rogo, julga ler o jornal dos jornalistas e, sem o saber, lê a publicidade oculta de um instituto público ou de uma empresa privada. Para evitarem um conflito de interesses, os jornais só deveriam publicar esses artigos precedidos do aviso: “Prosa a rogo”.
Luís Salgado de Matos, Investigador de Ciências Políticas, in Público
Em primeiro lugar o senhor Luís Salgado de Matos deveria estar mais informado sobre as matérias que aborda, já que escreve num dos jornais nacionais mais prestigiados da actualidade. Os leitores que compram diariamente o Público merecem maior respeito. O senhor Luís Salgado de Matos não pode afirmar que as agências de comunicação nem nome certo têm, quando estas até estão representadas pela APECOM - Associação Portuguesa das Empresas de Conselho em Comunicação e Relações Públicas.
As relações públicas nasceram há muito tempo. Já em 1906, Ivy Lee, diplomado pela Universidade de Princeton, publicou uma “Declaração de Princípios” que enviou a todos os editores de jornais da cidade. Entre diversas coisas, referia o seguinte: “Isto não é um gabinete de imprensa secreto. Todo o nosso trabalho é feito às claras. O nosso objectivo é fornecer notícias. Não somos uma agência de publicidade. Se pensarem que certas informações deveriam pertencer exclusivamente à vossa secção comercial, não as usem. O nosso material é exacto; pormenores adicionais sobre qualquer assunto tratado serão prontamente fornecidos, e qualquer chefe de redacção será apoiado, com o maior empenho, na verificação de qualquer afirmação factual. Em suma, o nosso plano é fornecer franca e abertamente, em nome das firmas e instituições públicas, informação rápida e exacta à imprensa e ao público dos Estados Unidos, relativa a assuntos que sejam de interesse e valor para o conhecimento do público”.
Mais, é um disparate este senhor afirmar que “a pedido da agência, o jornal publica notícias”. Aqui ofende não só os profissionais das inúmeras agências de comunicação existentes, que na sua grande maioria são formadas por pessoas devidamente licenciadas, como também todos os jornalistas que trabalham nos mais diversos meios de comunicação.
Se o senhor Luís Salgado de Matos tivesse tido a preocupação, antes de escrever o seu artigo, de falar com alguns jornalistas a fim de perceber se o trabalho das agências de comunicação é útil ou não, talvez não escrevesse certas e determinadas coisas. Dadas as redacções serem cada vez mais pequenas, mas face à concorrência do sector, terem que ser mais produtivas, não existe nenhum meio de comunicação social em Portugal que não sobreviva sem agências de comunicação. Quem pense ao contrário está certamente errado. Estas empresas sugerem temas, ajudam os jornalistas a chegar mais depressa às fontes, cedem imagens, e muito mais. No entanto, tudo é decidido pelo jornalista tendo em conta o perfil e alinhamento editorial do meio de comunicação social. Por isso é que existem os cargos de editor e coordenador. São eles que decidem se querem abordar determinado assunto ou falar com determinada pessoa. Ninguém os obriga a nada. Tudo é claro. Se o jornalista se sentir enganado, de certeza que só o é uma vez. Ele tem a capacidade de fazer a triagem de quem é realmente profissional ou em quem pode realmente confiar.
O senhor Luís Salgado de Matos não sabe ou esquece-se que muitas manchetes de jornais ou aberturas de telejornais são feitas graças a informações das agências de comunicação. É isto que faz os jornais venderem todos os dias milhares de exemplares ou terem dezenas de anúncios que possibilitam pagar os salários dos jornalistas e dos colunistas (que são cada vez mais e em menor qualidade) como é o caso deste senhor. Tal como as empresas de comunicação, também os meios de comunicação social são um negócio. Se não forem apelativos nos temas escolhidos e na abordagem a estes mesmos temas, jamais conseguirão sobreviver durante muito tempo.
Se é totalmente pertinente e ético a recente medida implementada pelo jornal Público de sempre que um jornalista viaja a convite de uma empresa, colocar junto do artigo publicado a expressão: “A convite de…”, já a expressão: “Prosa a rogo”, na minha opinião não tem qualquer cabimento e só poderá ser sugerida por alguém que vive muito longe do mundo real dos meios de comunicação social.

5 comentários:

Squeezy disse...

Mera curiosidade, ou não, também li este artigo, achei que aquilo não estava bem explicado. E até estava um bocado confuso. Não conhecendo eu bem o meio, a ideia com que fiquei é que por vezes se "facilita" mais o aparecimento num jornal de empresa x do que da empresa y. Isto devido a favores mútuos. Mas será que na realidade isso não acontece mesmo?


volto a referir que não estou por dentro do meio e foram apenas as elações que tirei aquando da leitura do artigo.

Renato Póvoas disse...

A razão de uma empresa aparecer mais do que outra deve-se ao facto de possuir uma boa estratégia de comunicação. Quero com isto dizer que dirige as mensagens correctas aos meios de comunicação social indicados. Não existindo assim qualquer acto de facilitismo. Apenas uma questão de saber comunicar os temas de forma interessante e pertinente nos timings adequados.

Anónimo disse...

Muito pertinente este comentário. O autor do artigo de opinião não faz a mínima ideia do que é uma agência de comunicação.

Maria Âmbar disse...

Primeiro: nem sei que diga relativamente ao artigo do senhor no Público. Segundo: não será antes XPTO? :) Terceiro: acho que já sei o que dizer... ele que tire um minutinho do seu atribulado dia de comentador para pensar... Como raio ele acabou como comentador e como raio um jornal se vende...? Será em parte graças a estratégias de comunicação? E será que só eu tenho a sensação que o coitado do senhor terá sido, numa remota hipótese, preterido por uma agência de comunicação que não lhe prestou atenção??? Será ressabiamento?

Anónimo disse...

Este artigo parece incomodar...